Aulas 3 e 4

1.     GRAMÁTICA DA LÍNGUA DE SINAIS

 

A Libras é dotada de u ma gramática composta por itens lexicais, que se estruturam a partir de mecanismos morfológicos, sintáticos e semânticos, os quais, embora apresentem especificidade, seguem também princípios básicos gerais. Estes são usados na geração de estruturas lingüísticas de forma produtiva, possibilitando um número infinito de construções, a partir de um número finito de regras.

Há, também, componentes pragmáticos convencionais, codificados no léxico e na estrutura da Libras que permitem a geração de implícitos, sentidos metafóricos, ironias e outros significados não literais. Esses princípios regem também o uso adequado das estruturas lingüísticas da Libras, isto é, permitem aos seus usuários usar estruturas nos diferentes contextos que se lhes apresentam, de forma a corresponder às diversas funções lingüísticas que emergem da interação no dia-a-dia, bem como dos outros tipos de uso da língua.

2.     FONOLOGIA DA LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS

 

A fonologia das línguas de sinais estuda as configurações e movimentos dos elementos envolvidos na produção dos sinais.

A primeira tarefa da fonologia para a língua de sinais é determinar quais são as unidades mínimas que formam os sinais. A segunda tarefa é estabelecer quais são os padrões possíveis de combinação entre essas unidades e as variações possíveis no ambiente fonológico. (Quadros e Karnopp, 2004, p. 47)

O que é denominado palavra ou item lexical nas línguas orais-auditivas recebe, nas línguas de sinais, o nome de sinal, o qual é formado a partir da combinação do movimento das mãos com um determinado formato em um determinado lugar, podendo esse lugar ser uma parte do corpo ou um espaço em frente ao corpo.

Os articuladores primários das línguas de sinais são as mãos, que se movimentam no espaço em frente ao corpo e articulam sinais em determinadas locações nesse espaço. Um sinal pode ser articulado com uma ou duas mãos. Um mesmo sinal pode ser articulado tanto com a mão direita quanto com a esquerda; tal mudança, portanto, não é distintiva. Sinais articulados com uma mão são produzidos pela mão dominante (tipicamente direita para destros e a esquerda para canhotos), sendo que sinais articulados com as duas mãos também ocorrem e apresentam restrições em relação ao tipo de interação entre as mãos. (Quadros e Karnopp, 2004, p. 51)

Essas articulações das mãos, que podem ser comparadas aos fonemas e às vezes aos morfemas, são chamadas de parâmetros, que, nas línguas de sinais, são: Configuração das Mãos (CM), o Movimento (M), Ponto de Articulação (PA) e Orientação (O). Além dessas características, ainda podem ser considerados os componentes não-manuais dos sinais, tais como as expressões facial e/ou corporal, o movimento da cabeça e do corpo. Tomamos como exemplo o sinal CERTO.

 

a.     CONFIGURAÇÃO DE MÃO (CM):

Esta pode permanecer a mesma durante a articulação de um sinal, ou pode ser alterada passando de uma configuração para outra. As configurações podem variar apresentando uma mão pode estar configurada sobre a outra que serve de apoio, tendo esta sua própria configuração (p.ex. ESPERAR); duas mãos de forma espelhada (p.ex. NASCER).

Segundo Ferreira-Brito (1995), existem 46 configurações de mão diferentes para a Libras, e elas podem ser diferenciadas quanto às posições, número de dedos estendidos, o contato e a contração (mãos fechadas ou compactas) dos dedos.

 A configuração da mão pode ser mantida constante durante a articulação de um sinal, ou ainda pode alterar para uma outra configuração. Por exemplo, os sinais EDUCAÇÃO e COSTUME têm os demais parâmetros iguais (ou seja, “movimentos”, “ponto de articulação” e “orientação”).

 

b.      O PONTO DE ARTICULAÇÃO (PA):

 

É o local do corpo do sinalizador onde o sinal é realizado; assim, uma maior especificação da posição é necessária, já que a região no espaço é muito ampla. Esse espaço é limitado e vai desde o topo da cabeça até a cintura sendo alguns pontos mais precisos, tais como a ponta do nariz, e outros, mais abrangentes, como a frente do tórax. Em situações em que o local onde o sinal é realizado não for relevante, este PA é chamado “espaço neutro”. Há sinais que se diferenciam somente pelo ponto de articulação, p. ex., SÁBADO e APRENDER.

 

c.      MOVIMENTO:

 

Para que seja realizado, é preciso haver um objeto e um espaço. Nas línguas de sinais, a(s) mão(s) do enunciador representa(m) o objeto, enquanto o espaço em que o movimento se realiza é a área em torno do corpo do enunciador. O movimento pode ser analisado levando-se em conta o tipo, a direção, a maneira e a freqüência do sinal. O tipo refere-se às variações do movimento das mãos, pulsos e antebraços; ao movimento interno dos pulsos ou das mãos (p.ex., palestra); e aos movimentos dos dedos. Quanto à direção, o movimento pode ser unidirecional, bidirecional ou multidirecional. Já a maneira descreve a qualidade, a tensão e a velocidade, podendo, assim, haver movimentos mais rápidos, mais tensos, mais frouxos, enquanto a freqüência indica se os movimentos são simples ou repetidos. (Ferreira Brito, 1995; Quadros & Karnopp, 2004).

3.     SISTEMA MORFOLÓGICO DA LÍNGUA DE SINAIS.

 

Morfemas são elementos mínimos — carregados de significado — que compõem palavras, organizando-as em diversas categorias, segundo um sistema próprio da língua. As línguas de sinais, assim como as línguas orais, possuem um sistema de formação de palavras. Morfologia é o estudo da estrutura interna das palavras ou sinais, assim como das regras que determinam a formação das palavras. A palavra morfema deriva do grego morphé, que significa forma. Os morfemas são unidades mínimas de significado. (Quadros &Karnopp, 2004, p.86).

Os morfemas, tanto nas línguas orais como na língua de sinais, determinam não apenas o significado básico das palavras, mas também a idéia de gênero (masculino ou feminino); de número (singular ou plural); de grau (aumentativo ou diminutivo); de tempo (passado, presente ou futuro).

4.     ITENS LEXICAIS PARA TEMPO E MARCA DE TEMPO

 

A Libras não tem em suas formas verbais a marca de tempo como o Português. Dessa forma, quando o verbo refere-se a um tempo passado, futuro ou presente, o que vai marcar o tempo da ação ou do evento serão itens lexicais ou sinais adverbiais com o ONTEM, AMANHÃ, HOJE, SEMANA PASSADA, SEMANA QUE VEM. Com isso, não há risco de ambigüidade, porque sabe-se que, se o que está sendo narrado iniciou-se com uma marca no passado, enquanto não aparecer outro item ou sinal para marcar outro tempo, tudo será interpretado como tendo ocorrido no passado. Os sinais que veiculam conceito temporal, em geral, vêm seguidos de uma marca de passado, futuro ou presente da seguinte forma: movimento para trás, para o passado; movimento para frente, para o futuro; e movimento no plano do corpo, para presente. Alguns desses sinais, entretanto, incorporam essa marca de tempo, não requerendo, pois, uma marca isolada, como é o caso dos sinais ONTEM e ANTEONTEM,

Outros sinais, como ANO, requerem o acompanhamento de um sinal de futuro ou de presente, mas, quando se trata de passado, ele sofre uma alteração na direção do movimento de para frente para trás e, por si só, já significa ANO PASSADO. É interessante notar que uma linha do tempo constituída a partir das coordenadas: passado (atrás) – presente (no plano do corpo) – futuro (na frente).

5.     QUANTIFICAÇÃO E INTENSIDADE

 

A quantificação é obtida em Libras através do uso de quantificadores como MUITO. É possível observarmos nos exemplos abaixo com o verbo “olhar”, a partir dos exemplos abaixo:

a) olhar durativo é realizado apenas com um dedo estendido; b) o sinal é realizado com todos os dedos estendidos.

Dessa forma, esse tipo de alteração do parâmetro Configuração de Mão iconicamente representa uma maior intensidade na ação ou um maior número de referentes sujeitos.

Essa mudança de configuração de mãos, aumentando-se o número de dedos estendidos para significar uma quantidade maior pode ser ilustrado pelos sinais: Olhar (pontual) Todos estão olhando.

Às vezes, alongando-se o movimento dos sinais e imprimindo-se a ele um ritmo mais acelerado, obtém-se uma maior intensidade ou quantidade. Isso é o que ocorre com os sinais FALAR e FALAR SEM PARAR.

6.     GÊNERO

 

No caso de gênero: para a indicação do sexo, acrescenta-se o sinal de mulher ou de homem, quer a referência seja a pessoas ou a animais. Entretanto, para indicar pai e mãe, não é necessário, pois há sinais próprios.

Além disso, os sinais podem ser simples (apenas um sinal) ou compostos (dois ou mais sinais); arbitrários ou icônicos; ou utilizar o recurso datilológico (alfabeto manual), quando não tiver um sinal próprio.

A Língua Brasileira de Sinais – LIBRAS — como toda língua de sinais, foi criada em comunidades surdas que se contataram entre si e a passavam ao longo de gerações. É uma língua de modalidade gestual-visual porque utiliza, como canal ou meio de comunicação, movimentos gestuais e expressões faciais que são percebidos pela  visão para captar movimentos, principalmente das mãos, a fim de transmitir uma mensagemdiferenciando-se da Língua Portuguesa,  que é uma língua de modalidade oral-auditiva por utilizar, como canal ou meio de comunicação, sons articulados que são percebidos pelos ouvidos.

Devido a essa diferença de canal de comunicação, normalmente os sinais utilizados nas línguas de sinais são entendidos como simples gestos. Outras vezes toda a língua sinalizada é dita como mera mímica ou pantomima. Durante muito tempo, foi considerada — e para alguns ainda o é – um sistema natural de gestos, sem nenhuma estrutura gramatical própria e com áreas restritas de uso.

Entretanto, pesquisas sobre as línguas de sinais vêm mostrando que elas são comparáveis, em complexidade e expressividade, a quaisquer línguas orais: expressam idéias sutis, complexas e abstratas. Essa língua é viva, tem sentimentos e desenvolve a imaginação. Nenhuma outra língua é mais apropriada para expressar grandes e fortes emoções (Desloges, 1984). Os seus usuários podem não apenas discutir filosofia, literatura ou política, além de esportes, trabalho, moda, como também utilizá-la com função estética para fazer poesias, histórias, teatro e humor.

A língua de sinais contém todos os componentes pertinentes às línguas orais, como gramática, fonologia, semântica, morfologia, sintaxe preenchendo, assim, os requisitos científicos para ser considerado instrumento linguístico de poder e força. Além de possuir todos os elementos classificatórios identificáveis de uma língua, a LIBRAS demanda prática para seu aprendizado, como qualquer outra língua.

 Daremos inicio ao conhecimento desta língua:

 Vejamos o alfabeto manual

Identificação Pessoal

Sinais das prncipais cores

Dias da Semana

Meses do Ano

Estações do Ano

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Sobre lulibras

Graduada em Letras e Pedagogia, Intérprete em Libras. Professora do Curso de Pedagogia da Universidade Paulista (UNIP) Campus Jundiaí.
Esse post foi publicado em Aulas Libras UNIP 2010. Bookmark o link permanente.

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